sábado, 11 de abril de 2020

Fazer Política* ou fazer Gestão? Qual o melhor equilíbrio entre essas duas abordagens?


(Artigo publicado originalmente dia 1º/Maio/2018 em meu perfil do LinkedIn) 

Hoje é dia primeiro de maio, uma das datas de maior repercussão social no cenário mundial; o dia escolhido pela maior parte dos países no mundo para lembrar, evidenciar e celebrar as questões ligadas à relação laboral: o Dia do Trabalhador, ou o Dia do Trabalho, como alguns o chamam.

Por sua vez, ontem foi o último dia para a entrega da declaração do imposto de renda de 2017.

Por que cito essas duas informações assim, aparentemente desconexas? Porque nelas estão contidos e interconectados três elementos que me serviram de inspiração para escrever esse artigo: a unidade de medida e referência cronológica "dia", o "trabalho" e "impostos".

Já, já vai ficar mais claro.

Acho que é praticamente uma unanimidade nacional a crença de que pagamos muitos impostos em 
nosso país, o que se coloca basicamente, não pelos valores da arrecadação, mas pelo “baixo nível dos serviços públicos que recebemos em troca” (clichê esquisito esse).Concorda?

Em meio a elaboração da minha declaração do imposto de renda há algumas semanas, essa crença me veio forte ao pensamento, o que não deve ter ocorrido só comigo. Resolvi então pesquisar informações que pudessem me dar uma melhor ideia do que de fato representa a nossa carga tributária em termos de trabalho.

Vejam a seguir que questões interessantes eu descobri:

Inicialmente quero lembrar alguns números consolidados do “nosso último balanço”, pois é assim que um gestor faz análises de resultados. Na verdade, vou me concentrar em apenas dois dados numéricos de 2017: o PIB, que foi de praticamente R$6.600.000.000.000,00 (resolvi escrever os zeros todos para dar uma ideia mais precisa do que é uma cifra de trilhão) e a carga tributária relativa em relação a esse PIB, que foi de 32,36%.

Isso mesmo, praticamente um terço do que todo país produz, mais o resultado das empresas estatais (as que tem resultado, é claro) geram a Receita que o Governo utiliza para pagar as despesas com a folha de pagamento do funcionalismo público, despesas com os sistemas da saúde, educação, segurança, Previdência, etc.

Resolvi transformar isso em dias de trabalho e vejam o resultado: 32,36% equivalem a 118 dias de trabalho.

Sabe do mais curioso? O 118º dia desse ano foi o último sábado, quase a data final para o prazo da 

Declaração do IRPF 2018, relativo ao exercício 2017. Coincidência, não?

Tudo o que a nação inteira produziu desde o início do ano até o último sábado foi, em tese, para pagar exclusivamente os impostos, o que o Governo, por sua vez, usa para pagar suas “contas”.Claro que isso é hipotético, pois estamos lidando com os dados do ano passado e a realização do PIB não se dá assim de forma tão linear e equilibrada ao longo dos 365 dias do ano. Mas acho que ainda assim a informação tem relevância.

Vale lembrar também que esse dinheiro ainda não é suficiente para o equilíbrio das contas, pois o Governo vem arrecadando menos do que o que gasta.

Ontem, foram divulgados os números do fechamento de março das contas do Governo. Se você o soube pelo Jornal Nacional, como a maior parte da nação, ficou apenas com parte da informação, pois eles basicamente focaram só a divulgação dos R$25,1 bilhões de déficit relativo apenas ao mês de março (clique aqui e veja mais sobre o balanço).

Já que estou raciocinando em bases anuais, o número que quero então destacar aqui é o do déficit acumulado das contas públicas nos últimos 12 meses, apurado até o último mês de março. Esse número correspondente a R$108,4 bilhões (1,64% do PIB), sem os juros, e de R$487,9 bilhões (7,37% do PIB), com os juros. 

Sabe o que isso representa? 

Mais 27 dias de trabalho extra da nação.

Ainda outro dado dentro desse mesmo raciocínio é a recente estimativa do montante de dinheiro desviado anualmente dessa arrecadação (oriunda do trabalho de todos nós, lembro), e que vai para as contas particulares dos políticos corruptos e seus colegas de quadrilha. Esse número vem sendo divulgado em matérias atuais como sendo de aproximadamente R$200 bilhões por ano, ou seja, mais 11 dias de trabalho de todos nós.

Por que eu faço essa transformação de valores em dias de trabalho? Por que é assim que um gestor pensa. Além da adequação de despesas e custos, o trabalho da força produtiva de uma Organização é sua única outra forma de buscar o equilíbrio de suas contas.

É por isso que, toda vez que sou provocado a falar ou debater sobre as questões nacionais sob a perspectiva política, eu me nego a fazê-lo.

Eu falo de gestão, não falo de política!

Eu acho que deveríamos focar a Gestão Pública e não a política.

Esse quadro de total desequilíbrio econômico financeiro que está aí “colocado” é fruto, no mínimo em grande medida, da priorização da perspectiva política na gestão pública, aliás, o que não poderia ser diferente, pois quem está à frente da gestão pública são os “experts em política”, e não em gestão.

Não acho que devamos abdicar totalmente do pensamento político (seria insano defender uma ideia dessas), mas não tenho dúvidas de que precisamos melhor equilibrar os aspectos técnicos na gestão pública, para que essa conta feche; e o mais importante ainda, para que os serviços que recebemos em contrapartida passem a ter uma relação custo benefício melhor avaliada por nós.

Essa condição de reduzida competência na gestão pública já está tão institucionalizada que, se você faz ou presta atenção em sua declaração de renda, já viu que o governo permite que descontemos (não no nível que deveria, é verdade) parcialmente os valores das contas que pagamos "em duplicidade", como é o caso de eventuais despesas com saúde e educação. Isso para mim é prova de que o gestor público já abdicou, por princípio, da busca do melhor em termos qualidade dos serviços públicos.

Eu só não me arrisco a dizer que o que precisamos é mesmo de um choque forte de gestão competente e dedicada, porque eu próprio fui vítima de uma estratégia assim no passado recente, quando atuei por pouco mais de três anos numa organização predominantemente regida por aspectos políticos.

Assumi (ou pensei que tinha assumido) a gestão da mesma em 2014, na época, com um orçamento anual de R$42 milhões e um déficit de R$3 milhões. Ano passado, os gestores do nível político da organização dispensaram meus serviços em agosto, praticamente com o quadro econômico financeiro do ano definido, e que se confirmou recentemente com a aferição de um superávit de mais de R$1,5 milhão em 2017.

E se já não bastasse o inusitado dessa virada de resultados, o mais importante dessa conquista é que ela se deu num cenário de manutenção de altos padrões de qualidade de serviços, visto que os índices de satisfação dos beneficiários dessa organização (seus “clientes”) continuam acima de 80%.Enfim, diante dessa situação, só o que consegui concluir sobre minha saída dessa organização é que "fiz gestão demais e política de menos."

Isto posto, me ajude a responder:

Fazer Política ou fazer Gestão? Qual o melhor equilíbrio entre essas duas abordagens?


Política é um vocábulo com inúmeras acepções e significados. Nesse artigo considero predominantemente o seu sentido figurado, ou seja, política enquanto habilidade no relacionar-se com os outros, tendo em vista a obtenção de resultados desejados.

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